CONFESSO QUE NÃO SOBREVIVI
Madrugada dos mortos
Por: Ingrid Guerra
Madrugada de sábado. Passavam das 3 horas da manhã e o novo arquivo, aberto no Word, continuava em branco. Ainda sobre a mesa, ao lado do computador, repousava o livro O reino e o poder: Uma história do New York Times, daquele que, além de ídolo, fora chamado de “Picasso da reportagem” – pela Folha de São Paulo um dos principais jornais do país: Gay Talese.
Não fossem as limpezas diárias, feitas pela mãe, no quarto, seria possível ver sobre a capa uma fina camada de poeira. Resquícios do abandono que durava dois meses. As expectativas eram de que a leitura se desse nas férias de julho. Mas o segundo semestre letivo começou, a obra permaneceu no mesmo lugar e nada mudou. Ou quase nada.
Há, sim, fatores novos: As angústias se multiplicaram, a falta de ânimo se tornou crônica, o cérebro deixou de funcionar como deveria, o raciocínio ficou mais lento, decretando uma espécie de limbo metal. Dali nada podia sair. As idéias que por ventura se atreveram a escapar viraram pó, antes mesmo de se concretizarem.
O diagnóstico não é difícil de adivinhar: é a morte minguante de uma paciente moribunda, que durante 6 longos anos resistiu bravamente aos percalços da vida acadêmica. Em tempos de glória chegara a ser comparada a Tom Wolfe, outro renomado jornalista, por um professor de redação. Embora, ás vezes, tivesse a impressão de que o elogio viera mais por apreço do que propriamente pelo talento, gostava de pensar que um dia seria comparada a seu ídolo-mor.
Hoje, porém, nem esta ilusão lhe restara. A arte de sujar sapatos, herança daquele que a influenciava e da qual era adepta – indo sempre pessoalmente atrás de suas fontes – não podia ser realizada. Afinal, sequer a pauta conseguia formular com propriedade. Como, então, ir em busca das informações que a fariam escrever textos inspirados? Impossível!
Enquanto isso, os prazos vão se esgotando. As cobranças começam e o medo/a certeza de decepcionar a consome. Não queria confessar a professora sua incapacidade. Não agora, prestes a se formar e tentando entrar no mercado de trabalho. No entanto, não podia fugir de um fato: a monografia, que fizera no semestre anterior, aliada ao estágio de aperfeiçoamento de texto, havia lhe consumido de tal modo que a recuperação se tornava árdua. Principalmente porque em nenhum dos dois obterá o sucesso esperado.
O fantasma da incompetência lhe rondava e a impedia de escrever ali, naquele novo arquivo do Word, a pretendida pauta que, há dias, deveria ter se tornado uma reportagem. Pensara em várias possibilidades. Queria falar sobre respeito, melhor dizendo, sobre a falta dele na sociedade moderna.
Desejava dar voz aos moradores de rua, aos cobradores de ônibus ou mesmo aos motoristas – já que a opinião dos passageiros quase todos conheciam. Porém, não estava certa de como se aproximar, o que perguntar e de que forma embasar tudo isso. Lembrara de uma propaganda que teria encaixe perfeito e poderia ser o gancho de abertura da matéria. Todavia, esquecera do anunciante. Pesquisara na Internet, entre amigos e nada. Ninguém sabia. Aquilo foi consumindo-a ainda mais e lhe provocando enxaqueca, até que desistira, quase chorando. O melhor a fazer era relaxar e esperar que a dor passasse.
Olhou então para o livro ao seu lado. Decidiu, finalmente, folheá-lo. Começou a ler: “em sua maioria, os jornalistas são incansáveis voyeurs que vêem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares. Uma cena sadia, que compõe boa parte da vida, ou a parte do planeta sem marcas de loucura não os atraem da mesma forma que tumultos e invasões. (...) A tristeza é o jogo, o espetáculo, sua paixão, a normalidade, sua nêmese”. Como sempre, gostara do que lera, mas, era preciso dormir. O que fez com a esperança renovada. Quem sabe a leitura e a nova semana que se anunciava lhe trouxessem, ao invés da morte, inspiração.
Ilustração?
Orlandeli
postado por: INGRID GUERRA 11:04 PM DIZemBUCHA aí!!
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