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Frase do momento: Não há nada mais triste do que ter ciência de uma impossibilidade.
Terça-feira, Maio 31, 2005
Mil e uma Noite de amargar
Por: Ingrid Guerra
O livro que supostamente lhe traria grande deleite fora a desgraça de João Dahlmann. No afã por desvendar os mistérios de As Mil e uma Noites - uma versão incompleta, de Weil, que adquirira em uma tarde, nos últimos dias de fevereiro de 1939 - subira apressadamente as escadas, do edifício onde morava, antes mesmo que o elevador pudesse descer. Não percebera, porém, na escuridão, no meio do caminho, um batente recém pintado que alguém esquecera de fechar e chocou-se contra sua aresta. Desta colisão, além de um corte na testa, contraiu uma septicemia que quase o levou a morte e o mantivera internado em um sanatório, na rua Equador, por longo período.
Nos oito dias que antecederam sua internação, os quais ficara convalescendo em casa, fora devastado por uma febre que lhe provocava terríveis alucinações - ilustradas pelas histórias de seu recente achado (o livro de Weil). Dahlmann surpreendia-se com amigos e parentes que o visitavam e, sem perceber as trevas pelas quais passava, repetiam-lhe, sorrindo, que o achavam muito bem. Tudo, no entanto, era apenas um preâmbulo do porvir, ou como o chamou "um arrabalde do inferno". No Hospital o despiram, rasparam-lhe a cabeça, prenderam-no - com metais - a uma maca, o iluminaram até a cegueira e a vertigem, auscultaram-no e um "homem mascarado" cravou-lhe uma agulha no braço. Nos dias e noites que se seguiram a operação, este jovem secretário da biblioteca municipal odiou-se minuciosamente, não apenas por seu estado físico como pela humilhação que suas necessidades corporais o impeliam.
Neto de um pastor da igreja evangélica, o alemão, Johannes Dahlmann e de Francisco Flores, militar espanhol - do 2 de infantaria de linha - morto por índios de Catriel na fronteira de Buenos Aires, teve de escolher, na discórdia de suas duas linhagens, qual apoiaria. Optou pelo antepassado de morte romântica, e a custa de muitas privações conseguiu salvar o casco de uma estância ao sul, que fora de seus ancestrais maternos - os Flores. A lembrança da ampla casa rosada - que nos áureos tempos fora carmesim - e dos aromáticos eucaliptos, não o abandonavam. Porém, nem mesmo essa nostalgia boa o fazia voltar aos pampas, talvez por negligência ou pelas tarefas com as quais se comprometia. Contentava-se com a idéia abstrata de posse e com a certeza de a casa o estava esperando num sítio da planície.
Contudo, viu a possibilidade de rever a estância, no início do outono quando saíra da casa de saúde. O primeiro frescor outonal, depois da opressão do verão, era como um símbolo natural de seu destino resgatado da morte e da febre. No percurso em direção a estação de trem, que o levaria ao Sul, Dahlmann reconhecia com felicidade os caminhos da cidade, que sofrera singelas modificações, no período em que ficara ausente. Ao partir a locomotiva, tirou de sua mala o primeiro volume das Mil e um Noites, com certa vacilação. Viajar com esta obra tão vinculada a sua desventura era uma afirmação de que essa desdita havia sido anulada e um desafio alegre e secreto às frustradas forças do mal. Não obstante o destino ainda iria lhe preparar algumas surpresas.
Perdido em devaneios provocados pela paisagem que o fazia suspeitar que viajava ao passado e não ao Sul, fora interceptado pelo inspetor que lhe avisou que o trem o deixaria em uma estação um pouco anterior a de costume, a qual Dahlmann apenas conhecia. Para chegar à estância seria preciso pegar uma condução, que a plataforma onde ele fora deixado não dispunha, mas, o chefe opinou que ele poderia, talvez, conseguir uma na casa de comércio que se encontrava a dez ou doze quadras dali. Dahlmann aceitou o desafio e dirigiu-se ao local. Lá, prometeram-lhe que fariam com que lhe atrelassem a jardineira. Acrescentando um novo fato aquele dia, decidiu que jantaria na venda. Acomodou-se próximo a uma janela, e ficou observando as pessoas do local. O proprietário trouxe-lhe sardinhas e depois carne assada, as quais ele degustou acompanhadas por alguns copos de vinho tinto. Três fregueses de uma outra mesa que pareciam dois peões de chácara e um achinesado e torpe que bebia com um chapelão começaram a lhe perturbar jogando pequenos pedaços de pão na face. Embora estivesse perplexo com tal situação decidiu fingir que nada acontecera e abrirá o volume das Mil e uma Noite, afinal, seria um disparate para ele, um convalescente, deixar-se arrastar por desconhecidos a uma briga confusa. Resolveu, então, que o melhor a fazer era sair dali, porém, quando já estava de pé o proprietário se aproximou e o exortou com voz alarmada:
- Sr. Dahlmann, não faça nada aos moços que estão meio alegres.
O seu reconhecimento, pelo dono do bar, o impeliu a defender sua honra e, agora, mesmo sem querer ou poder, ele teria de se mostrar imponente as provocações dos sujeitos. Ele afastou o proprietário, enfrentou os peões e perguntou-lhes o que andavam buscando. O valentinho achinesado ergueu-se cambaleando e entre palavras ofensiva e obscenidades, atirou para o ar um facão, convidando Dahlmann para briga. O proprietário objetivou que ele estava desarmado, mas, um velho gaúcho atirou-lhe, aos pés, uma adaga desembainhada, já não havia como fugir do duelo.
Ao inclinar-se para recolher a adaga percebeu que este ato o comprometeria a lutar e que a arma em sua mão inábil não serviria para defendê-lo, mas para justificar que o matassem. Sentiu, ao transpor o umbral, que a morte em uma peleja de faca teria sido sua libertação e felicidade, na primeira noite no sanatório, quando lhe cravaram a agulha. E se ele então houvesse podido escolher ou prever, esta seria a morte que teria escolhido.
postado por: INGRID GUERRA 9:38 AM DIZemBUCHA aí!!
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Tempo para mim sempre teve uma conotação particular. Desde os meus 16 ou 17 anos corro atrás dele. É estranho falar isso, mas, com essa idade já me sentia uma velha. Esse sentimento não era vão, eu era, realmente, a mais velha da turma. Não obstante a diferença etária era aceitabilíssima, um ou dois anos no máximo. O problema é que para mim essa disparidade era absurda. Corria atrás do tempo sem nunca alcançá-lo. Pensava:
- Estou perdendo tempo, eu preciso tomar decisões, as pessoas mais jovens já descobriram seu rumo... meu Deus, o que eu vou fazer? O que eu vou ser? Que futuro eu vou ter?
Eu estou velha de mais pra tantas coisas! Eu preciso de mais tempo... tempo, tempo, tempo. O tempo corre, os minutos passam, as horas voam, o ano acabou. Meu Deus, o que fiz do meu tempo?
Meu tempo passou? Será que terei tempo para tudo? É tarde demais, preciso me organizar. O prazo acabou, quero que o tempo não passe.
Olho o relógio, ouço o tic-tac... não vou conseguir, o dia nasceu, a hora passou, o prazo encerrou. Eu quero mais tempo. Tempooooooo!
Preciso de tempo. Estou velha demais. Não tenho tempo a desperdiçar. Vinte e um, vinte dois, vinte três... Nãoooo! Pára! Eu preciso de tempo, preciso crescer, preciso aprender, preciso amadurecer, preciso me encontrar e encontrar o prazer de viver.
Eu preciso de tempo, tempo p¿ra ler, p¿ra refletir, para entender, para descomplicar, para amar, para me divertir, para sair, para curtir. Mas o tempo não pára, o tempo só passa. O tempo não me espera chegar. E eu preciso tanto alcançar o meu tempo. Deixar o passado, esquecer o porvir, e viver o presente que o tempo me reservou.
Figura? Bebel Calage - ilustradora (ZH).
PS: pode não parecer, a primeira vista, mas esta figura tem tudo a ver com o texto (e comigo - se você me conhece, deve estar fazendo ligações!).
postado por: INGRID GUERRA 8:57 PM DIZemBUCHA aí!!
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Domingo, Maio 08, 2005
Fui intimada por minha amiga Maitê a responder este questionário que - por sinal, já havia visto no site da Luma - tem 'toda uma historinha' por trás (quer saber? corre até a pergunta seis e clica no link). Ele é bem interessante pois você acaba conhecendo as pessoas através do que elas gostam de ler. Além disso, você pode conseguir ótimas dicas de leitura. Claro, isso irá depender muito de quem o respondeu. Bom, chega de papo, vamos desvendar o universo ingridiano!
Questionário literário....
1. Não podendo sair de Fahrenheit 454, que livro quererias ser?
Eu tenho um amor maior por Gabriel García Márquez, principalmente pelo (o) Amor nos tempos do cólera, mas, gostaria de ser O Anjo Pornográfico - a vida de Nelson Rodrigues, de Ruy Castro, por ser este um livro apaixonado e apaixonante. Ruy Castro conseguiu me cativar nesta biografia, e eu nem era muito fã deste gênero literário. Por isso, se eu fosse um livro, seria O Anjo Pornográfico ...
2. Já alguma vez ficaste apanhadinho (a) por um personagem de ficção?
Bah, eu iria dizer que não, mas eu já fiquei sim. Primeiro pelo próprio Nelson Rodrigues. Enquanto lia o Anjo Pornográfico, pensava, como um homem assim, pode atrair tanto as mulheres? Foi então que percebi que tudo é questão de atração... não há beleza, nem inteligência, nem nada que supere a questão de pele (o jeitinho de ser, de cada um, é o que leva alguém a se apaixonar pela gente, e vice-versa).
Todavia, não era bem dele que eu queria falar nesta pergunta. Pois quem me perturbou mesmo foi Tiago de Clichê de Verão do Randall Neto. Acho que foi pelo momento em que li... não sei. Mas, desde então eu não tirei mais de minha cabeça que quero arrumar um "trintão" para mim - mas, não 'tô fazendo objeções a idades não... pode ter 40 também, que 'tô lucro (só não pode passar muito disso, pois daí vou acabar fazendo concorrência a minha mãe e isso não é legal. risos).
3. Qual foi o último livro que compraste? Comprei umas indicações que me parecem ótimas:
* O clube do bangue-bangue - instantâneos de uma guerra oculta: Greg Marinovich e João Silva. O livro é tud'bom, principalmente para quem deseja ser correspondente de guerra com eu. Ele trás depoimentos de fotógrafos que faziam expedições para cobrir conflitos no período entre a libertação de Nelson Mandela e sua eleição para presidente da África do Sul (apartheid etc..). Quem me indicou essa maravilha foi o grande JC, meu professor de fotojornalismo.
* Fama e Anonimato de Gay Talese, que, pelo que sei são vários perfis feitos por ele sobre celebridades e pessoas desconhecidas. Indicação de meu professor de Redação - Tibério.
* Pergunte ao pó de John Fante, indicado pelo meu grande amigo e escritor paulista, Paulo F.
4. Qual o último livro que leste?
Notícias de um Naufrago do (Salve, Salve) García Márquez, presente de minha amiga Fofety. Eu estava lendo Sartre, 'tava achando legal, mas, daí tive que ler vários xerox e fui deixando de lado ... depois comprei o Clube do bangue-bangue, que 'tô lendo, e abandonei-o de vez.
5. Que livros estás a ler?
Clube do bangue-bangue - tud'bom. E, Perdas e ganhos - Lya Luft, que fui intimada, por minha tia, a ler.
6. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
- O clube do bangue-bangue: instantâneos de uma guerra oculta - Greg Marinovich e João Silva
- O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues - Ruy Castro
- O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez
- Algum do Nelson Rodrigues ou sobre mitologia ou ainda Fahrenheit 454 porque agora fiquei curiosa. Vocês sabem a história desse livro? Não... acessa aí, o site da Luma, que ela falou sobre ele.
- Entre quatro paredes de Jean Paul Sartre - que não li, mas morro de curiosidade.
7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
- Passaria para o grande JC. Mas, ele não é muito fã de Internet.
- Passaria, também, para meu professor de Leituras em Jornalismo, Antônio Rohlfeldt que (sim, é o vice-governador do RS) possui um conhecimento literário de dar inveja.
- Para todo e qualquer leitor que se disponibilize a fazer a sua própria listinha. Pois, tenho certeza que só eles (quiçá nem estes) responderão!
Figura? Bebel Calage
postado por: INGRID GUERRA 7:52 AM DIZemBUCHA aí!!
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Quinta-feira, Maio 05, 2005
Quase como em um jornal popular....
BOLOTO Desacato a decisão do senado
Decapitação prematura
provoca dúvidas e
reprovação em Moscou
Por: Ingrid Guerra
Diante de um homem num estado de torpor que mais parecia um taberneiro de ínfima ordem - com aspecto e imagem que não correspondiam em nada às ações que havia cometido - o algoz de Emelka Pugatchev descumpre a decisão do senado, decapitando-o prematuramente. A sentença estabelecia que o condenado fosse esquartejado antes de ser levado à forca.
Não se sabe, ao certo, ainda, a razão pela qual o executor não acatou a ordem que recebera. Existem pelo menos três motivações para a insubmissão: um verdadeiro e próprio engano, perturbações por ser está sua primeira execução de uma sentença de morte, ou, ainda, a possibilidade de subordinação a delinqüentes que pretendiam evitar a prolongação do sofrimento do amigo-réprobo.
Uma multidão tomou a estrada desde a ponte de Bedra até a praça de Boloto, em Moscou, para presenciar a condenação do homem que se fez passar pelo Czar Pedro III. A leitura do veredicto se estendera por um longo período durante o qual o jovem rezava e se benzia, em pé, envolto numa longa pele de carneiro, o que não lhe atribuía aparência de um brutal e feroz bandido. Porém, julgou-se que ele devia receber inexoravelmente a digna recompensa de todas as suas atrocidades. Para tanto ele teria pernas e braços cortados antes de enforcamento.
A atitude do carrasco ao antecipar a decapitação do condenado irritou profundamente um funcionário que se encontrava próximo a ele e que, repentinamente, gritou: "filho de um cão! Que faz você?", para em seguida ordenar "depressa, os braços e as pernas". Neste instante se ergueu um grande clamor dos patíbulos que se encontravam ao redor e, num momento, a cabeça de Pugatchev se achou fincada na ponta de ferro sobre a estaca e seus membros cortados e o tronco ensangüentado sobre a roda. As partes do cadáver foram levadas para vários pontos da cidade para serem queimadas e posteriormente jogar ao vento as cinzas.
** Figura? Click: Moidsch * Informações extraidas do conto do escritor Russo, Andrei Bolotov, A execução Capital de Pugachev.
postado por: INGRID GUERRA 11:41 PM DIZemBUCHA aí!!
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Pensando alto
Enquanto livros e xerox se acumulam na mesinha ao lado da cama, penso em mim. Em meu presente, em meu passado e no que está por vir. No que deve ser mudado, no que deve ser buscado, no que deve ser largado. Penso em coisas que não deveria pensar, pessoas que não deveria me apegar e em todos aqueles que resolvi evitar. Me procuro... tentando achar a vida que abandonei em algum lugar.
Minha mami está de aniversário hoje. É para ela que vão meus mais sinceros votos....